Mulheres de causa e de buço

By 21/09/2017Música

“Nós não somos belas, recatadas, nem do lar. Somos divas, bagaceiras e do open bar.” Assim começa a apresentação das Mulheres de Buço, que entre mil e outras definições, performatizam músicas com temática feminista há três anos. A irreverência é uma marca: quem estava no “Prêmio Espíritu Libre Novos Sons” na última edição d’O Cluster viu de perto. O grupo foi vencedor da categoria “Novos” e, além do prêmio, vai ser atração na nossa edição de cinco anos – alô, novembro!

Batemos um papo reto, bem no estilo do coletivo, para entender de onde vêm as inspirações pra abraçar de forma tão dedicada um tema que, por mais que necessário, dói na pele de todas nós.

O Cluster: Como surgiu a ideia de criar o Mulheres de Buço?

Mulheres de Buço: O coletivo surgiu da necessidade da construção de um espaço para a voz/corpo feminino. Nós todas fazíamos teatro e tínhamos o desejo de nos juntar para uma criação em comum. No início não sabíamos qual seria o mote principal das nossas esquetes teatrais, mas com o tempo fomos percebendo o quanto nossas vozes e experiências estavam caladas e a urgência que tínhamos em botá-las para fora através da arte. Foi assim que há quatro anos atrás nos juntamos para nossa primeira cena. Quando começamos, nosso foco sempre esteve no teatro. Foi a partir do terceiro ano do coletivo que começamos a escrever letras de funk que assim como no teatro, contava nossas experiências, vivências e visões sobre o que acreditávamos. Desse modo fomos expandindo nosso campo de atuação e em 2016 começamos a fazer show em ocupações tanto secundaristas, como Ocupa Monteiro de Carvalho, quanto de artistas, como o Ocupa Minc – RJ.

O Cluster: De onde vem a inspiração de vocês?

MDB: Nossas primeiras inspirações sempre são aquilo que acontece ao nosso redor, acontecimentos do nosso cotidiano. Nós somos atrizes, gostamos de dizer que quando estamos no palco, mesmo fazendo músicas, estamos contando casos, histórias. Então várias letras são coisas que acontecem conosco, com amigas ou familiares.

O Cluster: Que causas abraçam?

MDB: Nós somos 7 mulheres que pensam muito parecido em algumas coisas e bastante diferente em outras. Mas abraçamos as causas que tocam qualquer uma de nós. Abraçamos a causa contra o machismo, que é algo que todas sofrem; contra a LGBTfobia, pois parte do grupo está inserida no contexto (e a outra parte apoia a causa); somos a favor da libertação do corpo feminino, que está sempre sendo alvo de críticas (seja por questões de peso, gordura ou por assumirmos nossos pelos, não nos depilarmos).

Um dos pontos que achamos muito relevante é esse do corpo das mulheres. Sempre nos perguntam: “Mulheres de buço, vocês não se depilam, então?”. E não é sobre isso, é sobre escolhas. E o poder de fazermos escolhas. Nós podemos depilar se quisermos ou ficarmos peludas, e isso diz respeito somente ao nosso desejo. No nosso show, está inserido um texto que a Joana Castro (uma das atrizes/cantoras) escreveu sobre o dia em que parou de alisar seu cabelo. A Joana é a única do grupo que não tem cabelo liso e esse texto diz respeito ao momento que ela aceitou seu próprio cabelo e não seguiu o que era esperado pelo meio em que viva, ou seja, ter o cabelo alisado.

Então, podemos dizer que as causas que nós abraçamos estão ligadas a autonomia e liberdade femininas.

O Cluster: Quais são as referências quando o assunto é música? E por quê?

MDB: Nossas referências passam por Mc Carol, Karol Conká, Pussy Riots, Bikini Kill, Deise Tigrona, Lady Gaga. Nós gostamos muito quando a forma de falar é “papo reto”. Achamos que a música tem esse canal de comunicação muito direto e adoramos quando ele é utilizado dessa forma. Fora a parte mais performática, pois todas essas mulheres arrasam seja no palco, em clipes, em estilo. E musicalmente falando também, abalam a galera, fazem dançar, gostamos da mistura do funk, punk, pop, rap.

O Cluster: Quando o assunto é mulherões da porra, quem inspira?

MDC: Muitos mulherões da buceta pra falar! [comentário da editora: sempre é tempo de desconstruir, não é mesmo?] No meio musical todas as que são nossas referências, ainda a Beyoncé, Valeska Popozuda, Billie Holliday, Nina Simone, mais recentemente a Pabllo Vittar! A nossa amiga Blackyva. As performers Valie Export, Marina Abramovic, Hannah Wilke. Frida Kahlo, referência sempre! Ana Cristina César, a cineasta Petra Costa. Chimamanda Ngozi Adiche! A artista plástica Lucia Koch e muitas outras. Em todas as áreas de conhecimento temos mulheres incríveis que servem de inspiração.

O Cluster: Como vocês vêem a importância de levantar essa bandeira no meio musical?

MDB: Nós estamos cercadas de mulheres incríveis, que a cada dia levantam e nos inspiram a levantar essa bandeira. Fomos percebendo ao longo das nossas apresentações o quão forte e impactante era a recepção das músicas nas pessoas que nos assistiam, e com isso sentimos a vontade de cantar e escrever cada vez mais sobre o que vivemos no dia a dia. A música é umas das artes que acessa diretamente quem está ouvindo, seja no corpo ou na mente. Isso nos inspira a falar tudo aquilo que sempre quisemos e nunca conseguimos. De escancarar os tabus que nos sentimos aptas a falar. De trazer a tona todos os pensamentos que as mulheres passam e não tem coragem de dizer.

O Cluster: Como você definiria o estilo musical do Mulheres de Buço?

MDB: Punk-Funk- Rock, com um toque de axé e brega. Tudo que dance!

O Cluster: Como é o processo de criação de vocês?

MDB: Uma das primeiras dificuldades que nós encontramos nos nossos processos, são músicas ou textos compostos por homens e consequentemente com uma visão masculina da situação. Desse modo nós nos encorajamos, pegamos um papel, uma caneta e decidimos escrever o que nós de fato queremos falar, e de fato nos representa. Geralmente uma de nós traz um trecho de uma música que criou e nos juntamos para aperfeiçoá-la. Ou então nos juntamos e começamos improvisos que vamos anotando e acabamos a noite com uma ou duas músicas. A maioria de nossas músicas são como histórias, nós misturamos a ficção com o que vivemos e levamos para nosso diretor musical Pedro Mib construir os arranjos. Ele com a ajuda da nossa Sapabanda fica encarregado de fazer nossas letras e devaneios virarem música. Quando temos tudo pronto nos juntamos em uma sala de ensaio para levantar a sequência do show. Esse são uma mistura de música, texto e performance, para nós ajudar a encaixar todos os nossos desejos na apresentação. Nossa diretora Karina Ramil mistura as coreografias criadas por Raquel Castro e as loucuras e criadas por nós em uma encenação performática.

O Cluster: Quais são seus planos? Próximos passos?

MDB: Nossos planos se baseiam principalmente em estar em constante movimento, em um fluxo contínuo de criação. Nós gostamos de sonhar alto! Então nossos próximos planos são lançarmos mais dois singles ainda esse ano, com clipes e continuar com a interseção com artes cênicas escrevendo uma peça de teatro nova para o ano que vem. Nós dizemos que somos acumuladoras, não deixamos nada para trás e somamos com o que vem pela frente. Por tanto queremos também continuar com nosso projetos musicais e teatrais.

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