Category

Arte

Slam das minas: literatura e resistência

By | Arte, Música, Todas as Matérias | No Comments

Paraty na época de sua Festa Literária é uma experiência incrível. Este ano, o evento principal teve instalações mais comedidas que nos anos anteriores e uma programação que incluiu um número maior de escritoras mulheres e escritores negros.

Quem acompanha vídeos de poesia e conhece o poetry slam, certamente sabe quem é Mel Duarte. Mel viralizou em um vídeo da FLIP no ano passado. Antes de continuar essa história, dá um play aqui:

Este ano, em Paraty, Mel não estava na programação do evento principal. Apesar da visibilidade que o vídeo trouxe pra sua vida, a poeta não recebeu nenhum convite para fazer qualquer participação na nova edição da FLIP. Entretanto, na casa de porta amarela, onde funcionou uma feira de autores independentes, Mel – que junto de outras três poetas organiza o Slam das Minas de São Paulo – participou de mesas de debates, juntamente com a cordelista Jarid Arraes (que recentemente denunciou o racismo presente no grupo de escritoras Mulherio das Letras) e Estela Rosa (do Mulheres que Escrevem).

E foi lá que aconteceu o encontro entre o Slam das Minas SP com o Slam das Minas RJ.  O Slam das Minas SP é organizado por Mel Duarte, Pam Araújo, Carol Peixoto e Luz Ribeiro. Luz recentemente, representou o Brasil na Copa do Mundo de Poetry Slam que acontece anualmente na França. Para enviar representantes para França os participantes das batalhas nacionais se enfrentam em campeonatos regionais e no Slam BR.

Com o intuito de fortalecer a cena das batalhas de poesia voltadas para o gênero feminino e garantir também uma vaga pras mulheres no Slam BR, além de empoderar e acolher mulheres, têm surgido alguns slams voltados ao gênero feminino, os Slam das Minas.

O primeiro Slam das Minas nasceu no Distrito Federal em 2015 e atualmente existem hoje slams voltados para mulheres na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. Para participar é necessário ter três textos de autoria própria com até três minutos de duração cada. As inscrições são feitas na hora e não é permitido utilizar nenhum tipo de figurino ou acompanhamento musical. Acontecem três rodadas eliminatórias e as juradas são escolhidas entre as pessoas da plateia na hora do evento.

O Slam das Minas do RJ, que existe desde maio deste ano e conta com a organização das minas Ursula H. Lautert, Lian Tai, Yassu Noguchi, Eliana Mara Chiossi, Karen Ferreira e Letícia Brito, também aceita a participação de pessoas trans e não binárias, apenas restringindo a fala de homens cis.

No jardim da casa de porta amarela, aglomeraram-se muitas mulheres e alguns homens e crianças para aplaudirem a batalha Rio-São Paulo que contou com cerca de 11 mulheres. Algumas delas como Sabrina Martina – organizadora do Slam Laje, que acontece no morro do Alemão – foram para Paraty apoiadas por contribuição voluntária de doadores por campanha nas mídias sociais. A poeta campeã da noite, Viviane Laprovita (do mesmo coletivo de Sabrina, o Poetas Favelados), também viajou com a vaquinha online e ganhou a vaga para participar da edição final do Slam das Minas RJ que acontecerá em outubro deste ano.

A FLIP, que pela primeira vez homenageia um autor negro – Lima Barreto-  e teve Lázaro Ramos e Conceição Evaristo em sua programação, ainda não olha pra poesia periférica com a mesma atenção com que seus vídeos que viralizam, mas há muitas poetas como Mel Duarte surgindo na cena paralela, se empoderando e fazendo valer a voz.

É a vez das mulheres e o Slam das Minas veio para ficar.

Letícia Brito*

Aslan: artista etc

By | Arte | No Comments

“Artista etc”: assim se define Aslan Cabral, pernambucano inquieto que tá por dentro de algumas das iniciativas mais bacanas no cenário da arte e da ocupação urbana em Recife. O que era pra ser uma breve conversa pelo telefone, se transformou em um mergulho cultural e auditivo de 45 minutos pelas iniciativas fervilhantes que Aslan participa. Não à toa, Aslan vai marcar presença na nossa primeira edição no estado, com uma apresentação que traz sua (multi)faceta de DJ com performance.

Mas se é artista etc, Aslan não se resume apenas às funções de DJ e performer, certo? Além de produzir arte, nos mais diversos formatos, Aslan executa – daqueles que faz acontecer.

O primeiro projeto-xodó é o Pangeia, um ateliê que ocupa uma das salas de um casarão no Recife antigo, ao lado do único albergue da região histórica e do Museu de Artes Afro-Brasil, do colecionador chileno Rolando Toro. “A ideia é fazer uma junção de continentes artísticos: pintura, performances, eventos…”, explica o nome e o conceito do projeto, que usa dinossauros em sua identidade visual. Também ocupam perenemente a Pangeia as artistas Paula Boechat e Juliana Lapa. “Estamos sempre dispostos a encontrar outras placas culturais”, conta Aslan, que procura não só por experiências materiais, mas por tudo aquilo que agrega o social e o sensorial.

Quando o assunto é economia criativa recifense, o artista é taxativo: “temos excelentes iniciativas, mas nos falta responsabilidade com a entrega”. Aslan defende que quando um indivíduo adquire algo de uma marca menor, há, além do valor material, o valor emocional em apoiar aquele tipo de consumo. E por isso, deve-se buscar diminuir as frustrações com o produto, procurando matérias-primas de qualidade e, principalmente, dando atenção especial ao acabamento. Entre as marcas que ele destaca, que já conseguiram fazer essa curva de maneira super próspera, está a Trocando em Miúdos.

Outra iniciativa que ocupa os dias atarefadíssimos de Aslan é o Museu do Tubarão, que completa dois anos em dezembro. A ideia surgiu da necessidade de ocupar o espaço público e exaltar a identidade dos moradores da cidade. “A gente sempre sofreu muito com a questão dos ataques de tubarão e isso é triste demais. Passamos a ter medo do mar, que é tão importante pra construção da nossa identidade caiçara”, explica Aslan. Pensando nesse resgate, o coletivo cria ações ao ar livre que promovem uma espécie de “terapia urbana” não só pra quem mora de frente da praia de Boa Viagem, onde o Museu habita, mas pra todos os que vivem nela. Nesses dois anos de história, já rolou virada cultural, festa de Yemanjá – que se comemora dia 2/12 em Recife – e banda de Maracatu com crianças com síndrome de down, exaltando a individualidade e a capacidade artística de cada uma delas.

Além de tudo isso, Aslan faz a curadoria de diversos projetos itinerantes (ou não) que vez ou outra desembarcam na cidade. Um dos mais emblemáticos foi a mostra “Aurora”, que desenvolveu para o consulado francês, reunindo artistas (só mulheres!) francesas e brasileiras com um elemento cultural em comum: o arcordeon. Esses projetos de curadoria Aslan assina pela Casa Navio, uma produtora híbrida que – pra variar – também não pára. Agora mesmo eles estão abrindo a convocatória para mais um Coquetel Molotov. Artistas que produzam em qualquer plataforma podem enviar seus trabalhos para navio.casa@gmail.com e cruzar os dedos.

Em meio a esse turbilhão de cria-produz-executa-desproduz, Aslan é um pernambucano com raízes bem definidas. Produz e abre espaços em sua terra natal, para seus conterrâneos. Pergunto se o bichinho desbravador não mordeu ele, como já vimos em outros exemplos de grandes artistas de lá e como acontece com muitos de seus amigos. Ele me responde: “a cidade do Recife também se abre pra mim”.

A PERFORMANCE DOS MODELOS DE PEDRO MEYER

By | Arte | No Comments

Pedro Meyer é um artista plástico com uma trajetória diversa, que vai de exposições ao redor do Brasil e fora dele a residências artísticas em lugares como EUA e Holanda. Na 18ª edição d’O Cluster, que aconteceu no Solar da Marquesa de Santos, Pedro mostrou o projeto “A Performance dos Modelos”, que mistura pintura, desenho, performance, fotografia e instalação, chamando a atenção de todos os que passavam por lá, participando ou não.

E a participação é uma peça chave da performance. Todos os que passam pelo local são chamados a utilizar os materiais de desenho disponíveis para dar sua interpretação íntima e pessoal da da ação dos modelos. O processo ocorre dando uma reviravolta no tradicional formato de pintura de modelo vivo com suas turmas de alunos observando por longos períodos de tempo pessoas paralisadas.

Ao contrário do que somos acostumados a ver, com modelos estáticos em suas poses, aqui eles se movem, criando uma sequência de cenas únicas e abrindo espaço para novas interpretações dos observadores. O resultado final é a produção de desenhos e fotografias que retratam o processo e as performances. Enquanto as fotografias apresentam sua forma mecânica e literal de registro, cabe aos desenhos e pinturas a observação do subjetivo, das nuances de intimidade e interação criadas pelos modelos.

“Quando alguém desenha uma performance se estabelece um novo tipo de relação. O desenho possibilita ao sujeito perceber novos sentidos e ao mesmo se concentrar nas sugestões específicas da cena proposta. A recepção dos participantes amplia as dimensões conceituais e físicas do trabalho. Os registros gráficos do público multiplicam imagens da performance, reforçando seu interesse e permanência. Percebo ainda nos participantes alegria e o desejo de conversar sobre os resultados e a experiência de desenhar uma performance.”, contou Pedro.

“A Performance dos Modelos” é um projeto inovador em diversos níveis e leva a união entre modelo, artistas e espectadores para um novo patamar, potencializando a troca de sensações e visões de forma lúdica e com registros belos e expressivos. Um projeto que vale a pena conhecer melhor visitando o site do artista Pedro Meyer.

STREET RIVER, A GALERIA DE ARTE URBANA À BEIRA-RIO

By | Arte | No Comments

Um festival de grafite com propósito e inovação. A 4ª edição do Street River acontece nos dias 6 e 7 de maio e promete impressionar os visitantes (tanto in loco quanto virtuais) com a primeira galeria fluvial do mundo. Sebá Tapajós, nascido no Pará e criado no Rio de Janeiro, é o grafiteiro idealizador do projeto que começou em 2015 e vem ganhando corpo a cada ano. O festival une a visão clássica do grafite enquanto arte urbana e expande o conceito, levando em consideração a premissa de que na Floresta Amazônica rio é rua.

Além de levar uma nova cor às comunidades ribeirinhas da Ilha do Combu, vizinha de Belém, o projeto tem o propósito da arte inclusiva, buscando maior visibilidade para os moradores que, mesmo estando a menos de 20 minutos da capital paraense, sofrem com a falta de infraestrutura de saneamento, saúde e serviços públicos em geral.

A galeria a céu aberto surgiu da iniciativa do próprio Sebá. Com recursos próprios, começou o trabalho junto à população do local em 2015, quando pintou as primeiras quatro casa e alguns barcos. Com a aceitação dos moradores, foi fortalecida a iniciativa de expandir os espaços da arte urbana levando para a edição de 2016 artistas de outras regiões do Brasil que pintaram um total de nove casas.

A edição de 2017 acontece na mesma região dos anos anteriores, agora atingindo também a Ilha das Onças e com a presença de artistas internacionais. Uma constante evolução dessa galeria nada convencional, que traz à pauta as discussões sobre urbanismo, desenvolvimento social, integração e meio ambiente.

Com a mata como pano de fundo, os visitantes embarcam em Belém rumo à galeria fluvial da Amazônia onde poderão ver as obras dos grafiteiros sendo criadas nas casas da região. O passeio ainda conta com visita à produção de cacau e açaí artesanal do Combú.

Um evento que mostra toda a diversidade do nosso país e leva arte e cultura para o universo grandioso da floresta. Não deixem de conferir os detalhes e acompanhar o evento diretamente do site oficial do Street River, que também contará com cobertura em tempo real. E pra já dar o tom do evento, clique aqui embaixo e veja um dos teasers.

SHE ROCKS: SENSIBILIDADE EM COLAGENS

By | Arte

Criado por Marcela Recchia e Líria Carneiro, o She Rocks é um coletivo de artes visuais que aborda o universo feminino. As cariocas se conheceram pela profissão (as duas são stylists de moda) e encontraram na colagem não só uma paixão em comum, mas também uma forma de expressar suas visões de mundo.

A matéria-prima vem de revistas antigas, livros ou qualquer material fotográfico garimpado em sebos. O processo é 100% artesanal – nada de digital existe no resultado final. As molduras das peças podem ser novas ou reaproveitadas. “A gente se preocupa muito com o consumo consciente”, conta Marcela.

As colagens têm influência no surrealismo e resultam num retrato da relação da mulher com a natureza. Alguns elementos estão sempre ali remetendo à liberdade como pássaros e corpos nus. Além disso, a ideia do coletivo é fugir da estética romantizada da mulher, buscando sempre usar elementos contrastantes e exaltar sua relação com o mundo contemporâneo.

Com três anos e alguma história pra contar, o coletivo já concretizou parcerias com as marcas Maria Filó, Eva e FYI. Pra ver tudo de perto, você pode encontrar com as meninas em exposições pelo Rio de Janeiro ou, se quiser, entrar em contato direto pelo Instagram acesse o link instagram.com/__she_rocks__.

PAZ E EMPODERAMENTO FEMININO ATRAVÉS DA ARTE

By | Arte | No Comments

Entrou em cartaz ontem (22 de março) no Centro Cultural da Justiça Federal a exposição “Rugidos Uterinos”, de Amanda Nakao. Em uma série de fotos de força e beleza impressionantes, a artista retrata mulheres em diversas situações pouco usuais de forma onírica. Os registros vão, no entanto, muito além dos corpos, das situações ou impacto visual. Criadas em parceria com as modelos, cada uma das fotos traz a concretização visual dos elementos do universo e do dia a dia feminino, sentidos na pele por cada uma, que geraram a motivação de posar para a lente da artista.

Menstruação, auto imagem, aborto, abuso… A realidade das mulheres, seja ela natural ou imposta pela sociedade, serve de inspiração e mote para as imagens. A ligação com o planeta, tão em falta hoje em dia e tão primária para as mulheres, também responsáveis pela geração da vida, é representada pela modelo Juliana Dias que interage com a terra em um grande campo nu como ela. A ruptura causada pelo aborto é, de certa forma, expurgada em lindas imagens de Catherine Fischer com um girassol. A aceitação de sua própria imagem, os pêlos, tão podados para que se mostre o que é considerado o padrão de beleza, todos esses temas surgem nas fotos de forma bela, direta, delicada e forte ao mesmo tempo.

Parte da exposição, o documentário dirigido por Sol Ahumada mostra entrevistas com Amanda e as modelos, o que coroa a experiência como um todo. Nele, é possível ver declarações de todas as envolvidas sobre o processo e sobre os efeitos do trabalho em cada uma. Através de seus depoimentos, surge a sensação de que criar cada um dos cenários serviu como uma válvula de escape, uma oportunidade de reavaliar, ressignificar e sentir de forma diferente a opressão e as pressões sofridas pelas mulheres. Na fala de cada uma das modelos o elemento comum parece ser a paz encontrada após os ensaios. A sensação de que, expressando as angústias em forma de arte, uma nova página pode ser virada. Sem dúvida uma página de luta também, já que muitas das modelos comentam no vídeo como se sentiram empoderadas, conscientes de sua força e sua capacidade de mudar o mundo para que o sofrimento e os abusos cotidianos não sejam mais o padrão.

Como um processo artístico que depende de muita cumplicidade, a presença de uma mulher de cada lado da lente fez toda a diferença, segundo Amanda. Ainda mais, proporcionou um desenvolvimento muito especial para ela. “Quanto mais eu fotografava e vivia esse processo, mais me sentia crescendo enquanto mulher, como significação e ressignificação dessa palavra e desse sentimento. Não só por ter um útero mas por me sentir pertencente”, comentou a fotógrafa.

Uma exposição que vale a pena visitar, observar, pensar e sentir. Um exemplo concreto de como a arte pode dar voz e trazer melhorias não só no geral, tocando o público que a visita, mas também aos envolvidos na criação da mesma.
Serviço:

Rugidos Uterino, de Amanda Nakao
Centro Cultural da Justiça Federal, Av. Rio Branco, 241, Centro
De 22 de março a 7 de maio de 2017
De terça a domingo das 12 às 19hs no gabinete de fotografia, 1º andar.

GENTE QUE FAZ #11: REALIZADORES

By | Arte | No Comments

Batman Zavareze é carioca, formado em Comunicação Visual, 43 anos e tem um currículo de dar inveja, com nomes que incluem MTV Brasil, Multishow, GNT, Discovery, Marisa Monte, Gerald Thomas entre outros…

É a pessoa que manda e desmanda Idealizador o Festival Multiplicidade desde 2005, uma das plataformas culturais mais importantes de arte tecnologia do Rio de janeiro.

O Festival acaba de abrir a sua temporada no Oi Futuro e o tema desse ano é ERRO.

A gente conversou um pouquinho com ele o resultado tá aqui.

O Cluster: Qual parte do seu trabalho faz seus olhos brilharem e as borboletas na barriga começarem a voar?

Batman Zavareze: Eu gosto de barulho, mas hoje eu estou tentando enxergar a beleza e os sons do silêncio. Gosto do ataque da orquestra que treme a caixa torácica e faz você se remexer na cadeira. Gosto também da ideia de instabilidade no campo criativo para buscar algo desconhecido, dentro do possível.

Hoje, num momento super tomado por informações de todos os lados, eu preciso de um tempo estendido para decantar o que faço, seja autoral ou uma encomenda de algum artista. Não abro mão do meu tempo e do meu processo para as minhas entregas. E isso não tem a ver com lentidão, pelo contrário, mas tem momentos que não atendo celular, não respondo email, nem olho as redes sociais, me desligo de tudo. Este é o momento que sempre resgato as boas ideias que estão guardadas nos meus últimos 43 anos… E as que permanecem são as que brilham meus olhos.

Quando trabalho com teatro, eu evito frequentar peças para não ser tomado por algum vício estético ou fórmulas. Quando trabalho com música vou para algum refúgio que tenha silêncio e não escuto nenhum tipo de melodia. Eu desenvolvi este modo em meus trabalhos e sigo assim.  

Eu trabalho regularmente com peças audiovisuais, criando ou pesquisando, mas particularmente tenho seguido os trabalhos que mesclam luz e silêncio.

OC: Qual o cenário ideal, o melhor dos mundos quando você está fazendo/criando/produzindo/tocando?

BZ: Isolamento total. Às vezes físico, às vezes mental.

Em 1998 e 1999 eu vivi uma residência artística na Fabrica, na Itália com 30 jovens, de 30 países diferentes numa região completamente isolada de grandes metrópoles.

Estava a 30 minutos de Veneza, no meio de uma plantação de azeitona, um clima de século XVII, mas ao mesmo tempo conectado com o mundo e exercitando um trabalho colaborativo e compartilhado de conhecimentos complementares. Ali surgiu o nome do festival Multiplicidade bem claro para mim e a ideia da rede com uma certa indisciplina dentro dos meus trabalhos.

A criação partia de um aprofundamento e um confronto que jamais tinha vivido antes no Brasil.

Hoje, mesmo com tantas distrações e cobranças de resultados imediatos eu tento criar rotinas para que eu consiga regularmente me isolar.

Normalmente quando estou no meio do furacão, tomado por trabalhos eu viajo sozinho para bem longe para enxergar melhor o que esta acontecendo.

OC: E se tudo der errado, onde fica o botão de emergência?

BZ: Uma vez eu perguntei para um senhor num documentário sobre arte popular quanto tempo ele levava para construir aquela porta… Ele suspirou e respondeu, “meu filho eu levei 70 anos para esculpir em 15 dias”.

Depois de 25 anos eu não acredito mais em erro… Eu chamo isso no meu trabalho de desvios. Os desvios são fundamentais para a criação do que eu faço.

Eu absorvo tudo para moldar o que chamo de resultado final

OC: Conte-nos algo escabroso dos bastidores que ninguém nunca poderia saber?

BZ: Este ano o festival Multiplicidade aborda o ERRO como tema de inspirações e criações dos artistas de nossa programação. O momento mais escabroso de bastidor que eu diria é quando tenho que entrar no banco para pedir empréstimo para fazer uma realização cultural. É um erro de tal dimensão que não cabe nesta palavra, é constrangedor.

Isso é uma cena que nunca se revela para quem esta lá curtindo uma estreia de um evento, mas a explicação de investir em algo que você chama de sonho muitas vezes é um ato romântico e pura ação política.

Outro ponto, sem revelar nomes, é que eu sou de uma geração que teve ídolos e conheci alguns deles de perto. Muitas vezes isso é um super desastre conhecê-los a fundo porque se desmancha num minuto um sonho imaginário que você constrói ao longo de anos…

Minha vivência no festival é de encontros com alguns mitos da era digital ou da música, que ao final eu tenho vontade de esganá-los… rsrsrsrs. Mas eu rapidamente volto meu olhar para as suas criações artísticas e acho um ponto de equilíbrio…. Para admirá-los novamente.

OC: Quando é mais cansativo e pleno, antes, durante ou depois?

BZ: O mais cansativo é o momento pós-acontecimento, quando baixa a adrenalina. Bate uma tristeza danada no fim.

Eu sou gosto de adrenalina e desafio, quando relaxo, tudo dói. Quando alguém me diz que algo nunca foi feito, eu fico num tesão incontrolável de fazer.

Eu curto a ideia de expandir para um lugar que desconhecido e quando você entra neste lugar incomum, é ruim sair de lá.

Sei que é um comentário surrealista a là “Luis Buñuel”, mas por mim, as minhas coisas não teriam nunca fim.

OC: Você faz o que você faz porquê….. 

BZ: Porque um dia abriram uma fresta de uma janelinha… e eu entrei.

Hoje eu não consigo me auto definir numa única palavra, até porque eu faço muitas coisas simultaneamente.

Eu sou uma mistura de curioso com inquieto, ou um fazedor.

Festival Multiplicidade 

Oi Futuro Flamengo – Rio de Janeiro

Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo

De 11h às 20h, de terça a domingo

Valor: Gratuito

Classificação etária: Livre

OCUPAÇÃO URBANA

By | Arte | No Comments

Smael

Acontece, até o dia 30 de junho, a mostra Ocupação Urbana na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. É a primeira vez que o espaço recebe uma exposição sobre arte urbana e está contando com o apoio do GaleRio, plataforma criada para fomentar a cena artística da cidade. São 14 artistas reconhecidos que produzem trabalhos de setores e estilos variados, alguns dos quais já estiveram presentes n’O Cluster. Todas as peças expostas estão à venda.

“A arte urbana influi ajudando na construção de uma linguagem que reflete o tempo atual com suas formas radicalmente livres, seu apelo jovem, seu resultado descontruído, sua duração efêmera. É também um catalisador muito grande de público atraindo mais olhares para as artes visuais e despertando interesse por outros segmentos artísticos. E, acima de tudo, é um meio de expressão acessível e legítimo onde as pessoas podem externar sua visão de mundo, que reforça e deflagra movimentos sociais e reflexões necessárias aos dias de hoje.” (Airá O Crespo)

A mostra se divide em duas galerias. Na Galeria 1 estão expostos mobiliários, instalações e objetos artísticos dos artistas Davi Rezende, Rodrigo Grau, Jorge Cupim, Meton, Smael, Téo Senna e Tito Senna. Davi Rezende, que produz peças de mobiliário a partir de sucata, é um dos nomes que já expôs n’O Cluster. Sua ideia de transformar materiais descartados em arte surgiu no ferro velho da família, que está nesse ramo há mais de 30 anos. Ao se deparar com trabalhos gringos feitos deste material, viu uma nova oportunidade surgindo e a partir de então não parou mais.

O processo de produção consiste na separação de peças que tenham algum apelo estético, seja um pé de mesa antiga, tacos de madeira, carrinho de supermercado… e transformá-los. A transformação é feita através de corte, solda e acabamento com pintura. “Costumo dizer que nada é obsoleto, tudo pode ser transformado em arte!”, diz Davi.

Meton

Sobre a importância de uma exposição sobre este tema, ele acredita que “o trânsito da arte urbana tem mudado um pouco com a aceitação mais intensa do público. Se transformou em uma via de mão dupla e o acesso é cada vez mais democrático entre a arte urbana e as galerias. Essa exposição tem o papel de aproximar o público da arte.”

Já na Galeria 2 encontramos telas e cartoons feitos por Acme, Tick, Airá O Crespo, Sark e Cazé. Além desses nomes de peso da arte urbana carioca, completam a lista de expositores Carlos Bobi e KajaMan, fundadores do Meeting of Favelas (MOF), que há 10 anos leva grafiteiros do mundo inteiro à comunidades fluminenses para aproximá-las da arte.

Airá O Crespo também já expôs seus grafites n’O Cluster. Explorando o conceito do auto conhecimento, as imagens retratadas por ele são muitas vezes desconstruídas em fragmentos, que representam as constantes mudanças pelas quais passamos ao longo da vida. Além disso, a música também é uma fonte de inspiração – além de grafiteiro, Airá também é MC – através de seus ritmos e composições. “Creio que a Ocupação Urbana cria um dos maiores panoramas da arte urbana carioca atual já realizados por aqui. O público leigo nesse universo pode ter acesso às artes visuais que criam um diálogo mais direto com ele, pois a vivência dos artistas de rua estão refletidas naquelas obras e a arte de rua tem uma objetividade grande na comunicação.”

Entrada gratuita
Endereço: Av. das Américas, 5300.
Horários: terça a domingo, das 10h às 18h.

ESCRITO À MÃO

By | Arte, Da Gringa

Caetano e Travis, são respectivamente, Brasileiro e Americano, juntos eles formam a “Brush and Leaf”, empresa que está fazendo “lettering” para marcas nos 5 boroughs (distritos) de Nova York e New Jersey.

A ideia de pintar placas e vitrines começou separado, Caetano ainda no Brasil e Travis em NY. Se encontraram e juntos resolveram montar a empresa que oferece pinturas de fachadas e vitrines e tem clientes que vão desde grandes empresas de publicidade até pequenas cafeterias.

O mais bacana do trabalho é a volta ao feito à mão, num trabalho que vai além de criar logos e sim pensar em cada cliente de uma forma especial.

No Brasil esse é um trabalho pouco difundido mas em NY está começando a crescer muito, pois num ambiente tão competitivo são os pequenos detalhes que tornam cada negócio especial.

Uma das técnicas de Lettering é  o Free Hand, geralmente baseado em letras do tipo single stroke, que basicamente são letras que podem ser feitas com uma ou poucas pinceladas, são muito tradicionais pois são rápidas de serem feitas e o cliente não tem tanta influência no resultado final.

Ou seja, um mercado para ser explorado e pensado, pois o futuro será feito à mão.

SLEEP NO MORE

By | Arte, Da Gringa

Sleep No More é um misto de performance e teatro ocupa de um velho hotel em Chelsea, rebatizado como  McKittrick Hotel e está em cartaz há 5 anos.

A peça não tem nada de tradicional e para vê-la é preciso percorrer esses andares, entrar e sair em cômodos e seguir atores por 3 horas. Parece cansativo mas é emocionante.

Fui com uma amiga e nos separaram logo no entrada, que fica num saguão de hotel onde é possível ouvir jazz e comprar um drink.

Para entrar te entregam uma máscara e dizem que não pode ser retirada até o fim do espetáculo. Entrei, comecei a caminhar sozinha (isso mesmo, ninguém te diz onde ir!) e logo fui surpreendida por uma atriz que me convidou a entrar numa sala e começou a ler um livro para mim, me entregou um papel com saco de areia e me disse que seria feliz?!

Depois disso comecei a minha caminhada, demorei um pouco para encontrar a primeira cena e após subir 1 andar me deparei com uma luta entre dois caras que me remetia a MacBeth de Shakespeare.

Toda a peça é inspirada em Shakespeare e parece um túnel do tempo que te leva direto aos anos 30.

São 100 comodos (cem!!) e é permitido tocar em tudo, inclusive abrir e remexer gavetas, examinar documentos; só não é permitido tocar nos atores.

E assim ao longo de 3 horas vamos vendo, ouvindo, tocando, correndo, andando e sentindo cenas de nudez, violência e danças coreografadas em cenários incluem hospitais psiquiátricos, caminhos escuros, cemitérios e clássicas em banheiras.

Quem gosta de suspense, um toque macabro, uma pitada de voyeurismo, um ar de pesadelo e obras de Hitchcock e Kubrick, vai amas. Pois é possível ser transportado para dentro de um filme noir: ambientes decorados com detalhes, levemente bagunçados, mal iluminados;  música de antigas vitrolas que tocam sem parar; atores perturbados vivendo suas histórias que incluem paixão, medo, sofrimento, sexo, violência.

No final te conduzem de volta ao saguão onde tudo começou e está acontecendo um excelente e animado show de jazz.

Vale cada centavo! 🙂

Serviço:

Sleep No More

530 W 27th St, New York